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Do grafite embaixo da unha à 'urna grávida', criador da urna eletrônica explica fraudes que inspiraram fim da votação em papel 30 anos atrás

Voto em papel nas eleições de 1990, no DF TV Globo/Arquivo Há 30 anos, era lançada a urna eletrônica brasileira. Utilizada em larga escala pela primeira ve...

Do grafite embaixo da unha à 'urna grávida', criador da urna eletrônica explica fraudes que inspiraram fim da votação em papel 30 anos atrás
Do grafite embaixo da unha à 'urna grávida', criador da urna eletrônica explica fraudes que inspiraram fim da votação em papel 30 anos atrás (Foto: Reprodução)

Voto em papel nas eleições de 1990, no DF TV Globo/Arquivo Há 30 anos, era lançada a urna eletrônica brasileira. Utilizada em larga escala pela primeira vez nas eleições municipais de 1996, foi criada para prevenir fraudes que ocorriam com o voto de papel. A prática era tão comum que os métodos de fraude eram conhecidos pelo nome: o voto formiguinha, a urna emprenhada, a mão mágica, o bico de pena e o mapismo eram táticas recorrentes colocadas em prática nas zonas eleitorais de todo o país. Entenda abaixo como era cada uma das fraudes. 📲 Acesse o canal do g1 RS no WhatsApp “O cenário que vivíamos foi o grande motivador para uma grande transformação. Nós votávamos em uma eleição no papel com muita intervenção humana", afirma Giuseppe Janino, um dos criadores da urna eletrônica. "E onde há intervenção humana, há três atributos vinculados ao ser humano: a lentidão, a prática de erros e muitas fraudes desenvolvidas no processo. Um portfólio de fraudes só é limitado pela criatividade do brasileiro”, diz o ex-secretário de tecnologia da informação do TSE, um dos autores do projeto do sistema de votação brasileiro. Com o voto de papel, a apuração do resultado das eleições podia levar dias ou até semanas para ser concluída. Já com o voto eletrônico, os candidatos eleitos são conhecido no mesmo dia em todo o país, horas depois da votação ser finalizada. Também eram comuns erros de preenchimento de cédulas, rasuras e votos anulados por falhas formais. O próprio TSE reconhece problemas como a demora e a ocorrência de fraudes nas votações. "A demora era comum em eleições de grande porte. Em muitos casos, o resultado final só era conhecido dias após a votação. Além disso, problemas como rasuras em cédulas, preenchimento incorreto e fraudes durante a contagem comprometiam a confiabilidade do processo", afirma a Corte Eleitoral em uma publicação. De onde veio o 'pilili'? Criador da urna eletrônica explica escolha do som Voto formiguinha A prática do “voto formiguinha” consistia na abordagem de um eleitor na fila da votação e na troca da cédula oficial por um papel comum. O eleitor recebia a cédula do mesário, mas colocava um papel comum na urna. “Quando o eleitor saía, entregava para aquele despachante (o golpista) a cédula em branco. O despachante preenchia aquela cédula e entregava no próximo da fila”, explica Janino. O golpe, portanto, funcionava de forma sequencial: outro eleitor que estava na fila recebia a cédula já preenchida, entrava no local de votação com ela, recebia a cédula em branco do mesário, mas colocava a já preenchida na urna. Depois, entregava a cédula oficial em branco ao golpista, que repetia o processo com outro eleitor. “Ele ia recebendo lá fora as cédulas oficiais em branco, ia preenchendo e negociando com o pessoal da fila cada uma daquelas transações.” Urna grávida Há mais de 30 anos, as urnas eram abertas na frente de representantes dos partidos para demonstrar a lisura do processo. Elas eram, então, seladas e enviadas vazias para os locais de votação. Contudo, era possível burlar esse procedimento e "engravidar" a urna com cédulas fraudadas antes do início da votação. “Algumas urnas misteriosamente apareciam mais pesadas na véspera da eleição. Ou seja, já com votos dentro, cédulas oficiais preenchidas”, lembra Janino. Essa fraude ficou conhecida como “urna emprenhada”, pois já chegava "grávida de cédulas" ao local de votação. Mão mágica A mão mágica era um processo mais simples, que envolvia habilidade. Após a eleição, as cédulas de papel eram dispostas em uma mesa para apuração e contagem de votos, o que dava acesso a possíveis fraudadores ao total de cédulas daquela seção. “Com um pouquinho de habilidade, você passava a mão em cima de uma cédula e, ou subtraia uma, ou inseria outra”, diz o matemático. Bico de pena O bico de pena era uma das técnicas mais refinadas de fraude. À época, quando a cédula era inserida na urna sem ser preenchida era considerada como um “voto em branco”. No momento em que o escrutinador fazia a contagem de votos e escrevia em uma planilha de papel, ele identificava a cédula em branco e podia escrever o voto para determinado candidato. “Havia, inclusive, uma técnica de colocar um grafite embaixo da unha. Quando ele abria uma cédula em branco, já dava um jeito de rabiscar um número naquela cédula”, afirma Janino. Mapismo Em uma etapa posterior, quando os votos passavam a ser computados em uma planilha física, eles poderiam ser manipulados de um candidato para outro, geralmente dentro de uma mesma legenda. Por exemplo, se dois candidatos receberam 50 votos, poderia ser registrado 80 para um e 20 para outro, mantendo-se o total de 100 votos. Também era possível inverter a votação de dois candidatos, ao se manipular as linhas e colunas daquelas planilhas. Ou mesmo votos nulos e brancos poderia ser contabilizados para determinados candidatos nessa planilha. "Quando os dados estavam na planilha, os votos brancos e nulos eram ali direcionados para um determinado candidato, o que era chamado a fraude do mapismo", explica Janino. Como funciona a urna eletrônica A urna eletrônica não é conectada à internet, ao Wi-Fi ou ao Bluetooth. Durante a votação, ela funciona de forma isolada e executa apenas programas previamente inspecionados, segundo o TSE. Antes das eleições, os sistemas utilizados na votação passam por etapas de inspeção, testes e fiscalização. Após, são gravados em mídias e lacrados para serem utilizados nas urnas. Os eleitores de cada seção também estão cadastrados nas suas respectivas urnas. Com a identificação, o mesário habilita a urna para a votação. Os votos são registrados individualmente, à medida que são inseridos na urna: cada voto digitado por cada eleitor representa um único arquivo. Os votos são armazenados em ordem aleatória, de modo que não seja possível associar um voto ao eleitor que o inseriu. Ao final da votação, a urna imprime o Boletim de Urna (BU) e grava os dados do resultado em uma mídia. A partir daí, as informações seguem para os sistemas de totalização por uma rede utilizada exclusivamente pela Justiça Eleitoral. VÍDEOS: Tudo sobre o RS

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